Muitos falam de mim, mas, que pena! Não me conhecem

PARÓQUIA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

ÁGUAS, BELA VISTA, CARIRU, CASTELO, VILA IPANEMA - IPATINGA / MG.

O Padroeiro: Sagrado Coração de Jesus

 

 

 

 

De vez em quando, precisamos de uma ‘sacudida’, de um tempo especial, forte, criativo, fecundo. O perigo da ‘mesmice’, de uma vida rasteira e sem asas, está sempre ai, na esquina da estrada da vida, ameaçando e esvaziando o gosto de viver.

Nunca houve tanta busca de felicidade, de prazer, como hoje e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta tristeza, decepção, depressão, até suicídio. Isso não pode ser por acaso. Apesar de tanto progresso econômico, científico, social, há muitíssimas mesas vazias e incontáveis vazios existenciais. Por que tanto contraste? Por que tanta violência?

O individualismo e o indiferentismo crescem assustadoramente. Parecemos uma sociedade de seres anônimos, manipulados por potentes forças ocultas, gerando medo e síndrome de pânico. Que vida é essa?

As instituições tradicionais: Família, Igrejas, Escolas, estão desacreditadas e marginalizadas. O que vale é o grupo fechado ao qual se pertence e não a comunidade. Vale mais o parecer que o ser, a estética que a ética, mais a emoção que a busca de sentido. A hipocrisia campeia em muitos lugares.

Vivemos em uma economia de mercado, em que tudo é mercadoria. A especulação financeira manda e desmanda, destruindo, matando povos e países frágeis, sem dó, cinicamente. Neste tipo de sociedade, Deus acabou sobrando, cada vez mais sem voz e sem vez. Ele não pode entrar nos condomínios fechados, nos seletos grupos do poder econômico, políticos, social. O crucifixo pode ficar pendurado nas paredes das casas, nas salas de aulas, nas repartições públicas, nos bancos, nos escritórios de executivos empresariais, de políticos, contanto que fique bem quietinho e caladinho, sem incomodar.

Imaginemos Jesus, o de Nazaré da Galileia, andando no bairro ou no povoado onde moramos, sem ser reconhecido. Ele vê um monte de Igrejas cristãs, tendo ele como referência principal. Visita todas elas, percebe que todas falam dele, mas cada uma do seu jeito; qual poderá ser seu comentário? Andando pela rua, ele vê lojas levando o seu nome. Entra em alguma casa para pedir um copo de água ou para saudar os de casa e vê na parede um crucifixo ou sua foto meio esquisita, com olhos azuis. Passando numa esquina de rua, ele vê alguém falando alto seu nome. Jesus para, vê e escuta. O que se estará passando no seu coração?

Continuemos a imaginar Jesus entrando nos ambientes de nossas paróquias. Entra na secretaria, observa com atenção as pessoas que aparecem; senta em alguma sala onde há reunião pastoral acontecendo. Na hora da missa, ele entra na igreja, senta no meio do povo, participa da missa como um fiel. Escuta a pregação, durante a qual se cita seu nome com frequência.

Agora, se Jesus pudesse falar suas impressões em viva voz, o que ele diria? Sem dúvida, ele valorizaria as coisas boas que vê, mas diria também, com amargura: “Muitos falam de mim, mas, que pena! Não me conhecem”.

Reparemos as agendas paroquiais. Elas estão lotadas de missas, celebrações, devoções, festejos de padroeiros e de padroeiras, de reuniões e mais reuniões. As celebrações dos Sacramentos comandam o dia a dia das paróquias. Louvores em honra a Jesus não faltam. Define-se beleza de uma paróquia pela quantidade de pastorais existentes. Pelo que se vê, há pastorais tarefeiras, repetitivas e fragmentadas, sem o fio condutor do seguimento de Jesus.

Párocos e agentes pastorais, às vezes sem perceber, tornam-se simples funcionários atarefados de uma instituição, Secretarias paroquiais correm o perigo de tornarem-se iguais a escritórios comerciais. São eficientes e organizadas do ponto de vista administrativo. Ao mesmo tempo, respira-se algo parecido a um vazio existencial, que deixa marcas negativas: cansaço, rotinas, insatisfação, acomodação, insegurança, tristeza, pavor, indiferença, grupinhos fechados, panelinhas e panelonas. Por que tudo isso? De onde vem? Oque pode ser? Sente-se no ar, nos gestos, nas conversas, que está faltando algo importante... o que pode ser?

Deixemo-nos iluminar pelo testemunho e o magistério de Papa Francisco. Ele afirma que em nossas igrejas, com frequência, escutamos “uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir”, mas, não satisfazem. Nas missas ouvimos pregações que não revelam “o coração da mensagem de Jesus Cristo”. Escutamos sermões que não espalham “o perfume do Evangelho”. Nem sempre saboreamos a beleza do Evangelho, que “dá resposta às necessidades mais profundas das pessoas”. Por causa disso, muitos se aborrecem e abandonam Igrejas e templos.

Papa Francisco denuncia com impressionante clareza um mal grave, que ele chama ‘mundanismo espiritual’. Consiste em “buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal”. Manifesta-se em muitas atitudes e gestos concretos. “Em alguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história”. O Papa alerta: “Até aqueles que aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e espirituais acabam, muitas vezes, por cair num estilo de vida que os leva a agarrarem-se a seguranças econômicas ou a espaços de poder e de glória humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na missão”. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais. Karl Rahner, o grande teólogo do século passado (1904-1984), chamava este mal de “mediocridade espiritual”.

Precisamos superar o “medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas, na verdade, a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”. A constatação é triste e amarga: há muitas caricaturas de Jesus. A dicotomia entre o seguimento de Jesus e o modo de ser Igreja é algo muito grave. Uma tragédia.

O que fazer diante disso? Assim não dá. Precisamos eliminar todas as ideias distorcidas que temos de Jesus. Precisamos voltar ao Jesus verdadeiro, o de Nazaré da Galileia; o Cristo, que foi pregado com ardor por seus apóstolos. E temos que fazer isso com urgência e com fidelidade! Precisamos redescobrir Jesus como sentido último, definitivo e verdadeiro de nossa vida, ao estilo de Paulo de Tarso: “Para mim, de fato, o viver é Cristo” (Fl 1,21).

 

Fonte: Subsidio da Semana Missionária “Igreja em Saída” -Edições CNBB