O que a irritação do papa nos ensina?

Mirticeli Medeiros*

PARÓQUIA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

ÁGUAS, BELA VISTA, CARIRU, CASTELO, VILA IPANEMA - IPATINGA / MG.

O Padroeiro: Sagrado Coração de Jesus

 

 

 

 

Papa Francisco se altera e o mundo fica horrorizado. Vibramos por vermos um papa tão humano e nos escandalizamos quando ele demonstra ser simplesmente humano, inclusive num deslize. A verdade é que, no mundo de hoje, nos contentamos com os personagens. Queremos que eles ganhem voz, em vez de darmos espaço à humanidade que precede os vários títulos que nos impõem. Também nós nos tornamos personagens desse teatro social. “Ah, mas um papa tão carismático e 'fofo' se deixou levar pelo ímpeto da raiva". Como se nós nunca tenhamos destratado uma pessoa, inclusive dentro de casa. Quão hipócritas que somos!

O papa errou, se envergonhou e reconheceu. Talvez, pela primeira vez na história, um sumo pontífice da Igreja Católica se curve diante de uma multidão para assumir que se equivocou. E não usou meias palavras para fazer a declaração. Aliás, pediu perdão por não ter sido um exemplo. Quem de nós pede perdão quando escandalizamos, com nossa agressividade, quem está à nossa volta?

Quantas vezes caímos no submundo do contra testemunho e nos escondemos por trás de uma vida dupla e corrupta, levados por aquele instinto narcisista de preservação da própria imagem? Cultuamos as aparências. É bem mais fácil assumirmos a figura do bom moço em de reconhecermos que estamos em caminho. E, sim, o papa Francisco está em caminho. A começar do primeiro papa, Pedro, que arrancou aquela orelha daquele soldado e foi admoestado pelo mestre. Na ocasião, ele estava em caminho. E morreu estando em caminho, bem como os seus 265 sucessores.

“Mas um papa deve se controlar”, diz um dos algozes católicos que, na verdade, está mais preocupado com o retorno de um papa-rei que em manter e incentivar um papado que se arrisca, entre erros e acertos. O erro de Francisco nos ensina que o papa, por primeiro, também deve mostrar como se reerguer-se de uma queda, não somente a ditar normas de conduta expressas em um documento. Mesmo sem querer, ele demonstrou que, até ele – assim como cada um de nós –, pode se deixar levar pelos impulsos.

Estamos realmente preparados para o “papa humano” que tantas gerações evocaram? Se a atitude de Francisco nos decepcionou, precisamos refletir, primeiramente, a respeito figura de Francisco idealizamos. E se essa figura é de alguém que não erra jamais, precisamos nos questionar se Jesus Cristo é realmente a nossa referência maior.

Quais expectativas geramos em relação às pessoas? Somos corajosos o suficiente para reconhecermos que não estamos prontos, que falhamos nas nossas relações, que não oferecemos às pessoas a dignidade que elas merecem? Talvez a reflexão, neste caso, não seja sobre a atitude de Francisco, mas sobre como aquele impulso de Francisco diz dos nossos impulsos e da nossa capacidade e coragem de recomeçar.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma