“Para que n’Ele nossos povos tenham vida”

PARÓQUIA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

ÁGUAS, BELA VISTA, CARIRU, CASTELO, VILA IPANEMA - IPATINGA / MG.

O Padroeiro: Sagrado Coração de Jesus

 

 

 

 

Nos últimos quarto anos, trabalhamos no Mês da Bíblia os temas na perspectiva do discipulado missionário, seguindo o projeto de evangelização “ o Brasil na missão continental”. Nos próximos anos, até 2019, enfocaremos a vida para todos os povos na perspectiva da pessoa de Jesus Cristo, aspecto importante contemplado no Documento de Aparecida.

Dentro dessa proposta, Miqueias é o livro indicado para o Mês da Bíblia 2016. O tema “Para que n’Ele nossos povos tenham vida” e o lema “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus” (cf. Mq 6,8) foram escolhidos pela Comissão Bíblico-Catequética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a colaboração do Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas), juntamente com outras instituições bíblicas.

QUEM É O AUTOR DO LIVRO DE MIQUEIAS?

Miqueias era camponês natural de Morasti-Gat, vila situada na fronteira do Reino de Judá com a Filisteia. Profetizou durante os reinados de Joatão (740-736 antes da Era Comum), Acaz (736-716 a.E.C.) e Ezequias (716-687 a.E.C.). Seu ministério durou aproximadamente cinquenta anos.

O livro de Miqueias é composta por sete capítulos. Mas, provavelmente, Miqueias escreveu apenas os textos que se encontram em 1, 2-2,11; 3,1-12; 6,1-7, 7. O restante da obra é fruto de um trabalho comunitário, para o qual muitas mãos contribuíram na redação.

A obra foi escrita dentro de um processo que durou muitos anos. Primeiramente o profeta realizou sua missão no território de Judá, profetizando duros oráculos contra as injustiças que permeavam Samaria e Jerusalém (Mq 1,1). É provável que ele tenha deixado algum rascunho dos anúncios.

Depois, seus discípulos fizeram memória dessa profecia e escreveram os acontecimentos mais importantes, na perspectiva da esperança, aliviando, assim, as duras palavras de Miqueias.

Por fim, os textos foram organizados de forma intencional, desrespeitando a ordem cronológica e seguindo a organização clássica da literatura profética, isto é, intercalando os anúncios de condenação com os textos de promessa de libertação.

ATUAÇÃO PROFÉTICA NA MONARQUIA UNIDA E NOS REINOS DE ISRAEL E JUDÁ

QUANDO FOI ESCRITO?

O processo redacional de Miqueias levou a proximadamente quatro seculos: começando no século VIII a.E.C., antes da destruição da Samaria, passando pelos séculos VII-VI a.E.C. e concluindo-se no seculo V a.E.C., depois do exilio na Babilônia.

No século VIII a.E.C. foram redigidos os capítulos 1-3,12, mais alguns versiculos do capítulo 5, onde aparecem os discursos de ameaça e condenação.

Ao longo dos séculos VIII-VII a.E.C., o espírito da profecia de Miqueias foi conservado por seus discípulos e profetas anônimos, e colocados por escrito os conteúdos que formam os capítulos 6,1-7,7.

Nos séculos VI-V a.E.C., escritores anônimos releram as profecias de Miqueias à Luz das experiências do exílio na Babilônia, acrescentando os textos de 4,1-5,14 e 7,8-20, e fizeram a redação final da obra.

ONDE FOI ESCRITO?

Em Israel, o movimento profético iniciou-se no período da monarquia unida, a qual durou quase um século (1030-931 a.E.C.) e chegou ao término no final do reinado de Salomão (976-931 a.E.C.)

Com o declínio da monarquia, o território foi dividido em dois reinos. O Reino de Israel, situado ao norte, que aparece no livro de Miqueias também com o nome de Jacó (Mq 1,5; 2,12; 3,1.8.9; 4,2; 5,6; 7,20),

SINCRONIA DOS REIS DE ISRAEL E JUDÁ

MONARQUIA DIVIDIDA

teve como última capital Samaria. O Reino de Judá ficou ao sul, com a capital Jerusalém, que aparece também como Sião (Mq 1,13; 3,10.12; 4,2.7.8.10.11.13)

A Samaria era cobiçada por muitos povos e foi tomada pelos assírios por volta de 718 a.E.C. Da mesma forma, Jerusalém foi destruída pelo Império Babilônico em torno de 587 a.E.C.

Esse cenário de conflito e guerra dificultou a localização exata da autoria de vários livros da Bíblia, porque os autores guardavam os seus escritos da melhor forma possível a fim de preservar suas obras. O mesmo aconteceu com o livro de Miqueias. Certamente foi redigido no Reino do Sul, em diversas regiões desse território, talvez uma pequena parte em área rural.

QUAL ERA SUA PRINCIPAL FINALIDADE?

O livro de Miqueias tem a finalidade de denunciar as diferentes configurações de injustiças espalhadas no Reino do Sul, centralizadas em Jerusalém, anunciar a promessa de libertação do povo escravizado na Babilônia e consolá-lo no retorno do exílio, com uma mensagem de esperança.

A obra também apresenta como as injustiças permeiam a vida das pessoas nas instancias social, econômica, política, religiosa e cultural. Mas a misericórdia divina para com o ser humano está presente pelas mediações de pessoas e acontecimentos históricos.

Apesar da distância que nos separa da realidade de Miqueias, acolhemos sua profecia transmitida para nós como Palavra de Deus. Por meio dela, procuramos ler a realidade com fé e esperança, sentindo a presença divina em meio às dificuldades.

ESTRUTURA DO LIVRO DE MIQUEIAS

Existem diversas formas de estruturar o livro de Miqueias. Podemos distribuir os sete capítulos em quatro partes:

1. Mq 1,1: Título do livro, que situa a origem, o período e a missão do profeta Miqueias.

2. Mq 1,2-3,12: A profecia do declínio de Israel e a ruína das cidades da Samaria (Jacó) e Jerusalém (Sião), que, futuramente, serão destruídas pelos assírios e babilônicos.

3. Mq 4,1-5,14: A deportação do povo para o exílio babilônico, com a esperança de libertação e o ressurgimento do messianismo davídico.

4. Mq 6,1-7,20: A promessa de libertação do povo e o apelo à conversão, com o auxílio da misericórdia divina.

ASPECTOS TEOLÓGICOS

Miqueias apresenta um Deus misericordiosos, que se revela em meio ao sofrimento, proveniente de inúmeras injustiças. Ele oferece às pessoas a possibilidade de conversão, na esperança de o povo viver eticamente a justiça e o direito. Com fidelidade restaura o resto de Israel, evidenciando a esperança messiânica. Nesse sentido, podemos elencar os seguintes aspectos teológicos:

Injustiças

No livro de Miqueias aparecem várias formas de injustiça, geradas por latifundiários que roubavam as terras dos pequenos proprietários e por líderes religiosos que se haviam afastado do monoteísmo, aderindo ao baalismo, isto é, corrente pagã que cultuava o deus Baal no território de Israel, de modo particular Samaria.

No aspecto religioso, a injustiça consistia no distanciamento do povo de seu Deus, aderindo aos cultos pagãos, com rituais de prostituição realizados nos templos construídos nos lugares altos das cidades em homenagem aos deuses baais. Por isso, muitos profetas nomeiam a Samaria como “prostituta” (cf. Mq 1,7; Am 2,7-8; Os 4,14; Dt 23,19), por causa da idolatria cultivada por seus habitantes.

A crítica profética não se dirigia apenas ao povo, mas também às autoridades políticas e religiosas que praticavam o mal, com o auxílio dos falsos profetas. Esses pseudoprofetas eram pagos para dizer coisas incoerentes com a justiça, afirmando erroneamente que Deus estava do lado dos malfeitores e que compactuava com injustiças (3,11).

Ouvir e escutar

A expressão “Shemá Israel” significa “Escuta, Israel”. É de origem hebraica e sintetiza a profissão de fé do povo que foi chamado para viver em profunda comunhão com Deus, conforme orienta Dt 6,4-9.

Em Miqueias, o verbo ouvir aparece sete vezes, como um clamor para chamar a atenção do povo de Judá que havia pecado afastando-se de Deus e apoiando-se na falsa prática religiosa que oprimia com uma fé fundamentalista e idólatra.

Ao longo do livro, esse clamor tem uma dimensão universal (1,2), por duas vezes refere-se às autoridades de Judá (3, 1.9), aparece de forma genérica (6,1), com uma conotação cósmica (6,2), clama para as tribos e assembleias da cidade (6,9) e também fala que Deus escuta o profeta (7,7).

Todas as expressões evidenciam que a aliança de Deus com seu povo foi violada por causa das injustiças provocadas pelas autoridades e compactuada pelas pessoas que não viveram de forma coerente com os ensinamentos de Deus (6,12).

A justiça e o direito

Segundo Miqueias, as autoridade políticas e religiosas tinham a missão de zelar pelo direito e pela justiça, com o objetivo de cultivar a vivência ética e a retidão de vida (3,9). Contudo, esses líderes cuidavam apenas dos seus interesses, acumulando riquezas, fruto da exploração do povo e da relação da barganha com Deus, com o próximo e com os bens.

Na relação com Deus, a prática da justiça e a vivência do direito proporcionam o distanciamento das diferentes formas de idolatrias, que afastam as pessoas do caminho de uma fé libertadora e da comunhão com o Deus misericordioso (7,7).

Na relação com o próximo, significa não instrumentalizar as pessoas, tornando-as objeto de manipulação, exclusão, sem o cultivo do ódio, que gera vingança e o prazer exploração (6,8).

Na relação com as coisas, adverte os seres humanos para não acumularem riquezas de forma gananciosa, sem o objetivo de partilhá-las com os mais necessitados (6,15).

Misericórdia

Miqueias afirma que o Senhor é misericordioso (7, 18b) para com o povo que sofre a tragédia do exílio na Babilônia, numa vida de desgraça. Por isso Deus concede o seu perdão e oferece a sua graça, livrando-o do castigo, da punição merecida (7,18a) e do desaparecimento silencioso do seu povo ao longo da história (5, 3).

A misericórdia divina demonstra que Deus não quer abandonar as pessoas e continua visitando-as, por mediações (1,1a). Nesse sentido, esse dom não pode ser entendido apenas como um sentimento, mas como uma ação salvífica que resgata os seres humanos das situações de miséria (4,10b), seja nos eventos extraordinários, seja nos fatos mais simples e corriqueiros do dia a dia.

O resto de Israel

Quando ouvimos a expressão “resto”, surge em nossa mente a ideia pejorativa de algo que não presta para nada. No entanto, no contexto da nossa abordagem, significa algo muito precioso na história do povo de Israel.

A expressão “o resto de Israel” evoca a fidelidade do povo nos momentos difíceis, de modo particular no exílio na Babilônia e na situação do retorno a Jerusalém, no período da reconstrução da cidade e da sua população (7,11).

No livro de Miqueias, “o resto de Israel” aparece como um orvalho que serenamente vem de Deus e penetra na terra, sem chamar a atenção (5,6), e também se manifesta como “um leão entre os animais da floresta” (5,7), o qual lidera em meio ao processo salvífico e de restauração das nações (5, 1-4; 7,12).

Esperança messiânica

O livro de Miqueias ressalta que de Belém-Éfrata “sairá aquele que governará Israel” (5,1). Num primeiro momento, esse versículo fala da esperança de um engrandecimento futuro do povo de Israel. Entretanto, a tradição cristã releu essa profecia, aplicando-a ao nascimento de Jesus de Nazaré.

Mq 5,1 aparece em Mt 2,6 mostrando que Jesus é o Rei-Messias que nasceu numa cidade insignificante, que não entrou na relação das cidades de Judá (cf. Js 15; Ne 11). No entanto, tal evento tornou Belém uma cidade importante e inesquecível.