Padre Abdala Jorge

PARÓQUIA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

ÁGUAS, BELA VISTA, CARIRU, CASTELO, VILA IPANEMA - IPATINGA / MG.

O Padroeiro: Sagrado Coração de Jesus

 

 

 

 

Nasceu em 19/06/1927 - em São João Del Rei - de origem libanesa.

Foi ordenado presbítero em 3º/11/1952

Chegou a Timóteo - Acesita - em 1953

Faleceu em 30/06/2012

Conheço grande profeta Padre Abdala Jorge em 1956, desde quando eu tinha doze anos, em 1954. Ele já me impressionava pelo seu estilo próprio de um padre-profeta dedicado à oração e à ação social. Ainda o vejo lendo jornais e rezando o Breviário, o Ofício divino, obrigação de todos os presbíteros para cada dia do ano. Ele, a meu ver e de muitos, encarnou totalmente a vida presbiteral, a serviço da construção do Reino de Deus, da Igreja, dos paroquianos especialmente dos menos protegidos.

Eu, ainda seminarista, quando vinha visitar meus pais, em Coronel Fabriciano, para as férias de dezembro, era sempre convidado por ele para cantar a novena do natal, (em latim) “Regem venturumDominum, veniteadoremus”, que ele valorizava fervorosamente, criando na Paróquia São José de Acesita, um clima gostoso de natal, de acolhimento do Menino Jesus e dos pobres.

Abdala era um padre que zelava pelo essencial e relativizava o acidental, o secundário de menor importância. Assim por cinquenta anos formou em Acesita uma comunidade conscientizada, um povo, uma Igreja que assume o Evangelho e se torna da Igreja sinal profético em favor dos pobres. Por isso, nem sempre ele foi bem compreendido, sendo até caluniado, processado pelo DOPS e chamado de comunista.

FESTA FAMILIAR

Quando meus pais (José Franco e Ercina), (Naná) eram vivos, para fortalecer os vínculos familiares e valorizar amigos mais próximos, eles faziam frequentemente alguma festa de família, quando podíamos nos relacionar, nos divertir, conversar, trocar ideias e

conhecer melhor nossos amigos, mesmo que não fossem católicos nem parentes.

Eram célebres as festas nas casas de meus pais, enriquecidas pela boa convivência, sempre coroada por alguma celebração, inclusive eucarística. As nossas conversas, sempre amenas, giravam em torno de tradições familiares, chistes e estórias alegres. Dentre os nossos amigos ele era convidado com frequência, havia um ilustre senhor, de Fabriciano, que professava o Credo católico.

Num clima de respeito, durante as festas, não havia agressão entre nós. Entretanto, aquele ilustre senhor, nosso convidado, sempre me procurava para detonar contra a Igreja, contra alguns padres, especialmente contra padre Abdala e padre De Man, que ele chamava de comunista. Numa das festas familiares, em que o célebre senhor nunca faltava, ele, me abordou diretamente atacando o padre Abdala. Eu sempre evitei discussão sobre assunto religioso naquelas ocasiões. Mas o visitante insistiu em diminuir e desmoralizar o nosso querido Padre Abdala, exaltando os pastores de sua Igreja, (que, aliás, é uma Igreja, a meu ver séria, respeitosa e até ecumênica). Então, com muita calma, eu desafiei aquele senhor que queria me agredir, difamando o padre Abdala como comunista e polítiqueiro. Então eu lhe falei de alguns trabalhos do padre Abdala, como aqueles em favor dos injustiçados, da farmácia perene mantida pelo Pe. Abdala para os pobres gratuitamente e de seu amor pelo Evangelho de Jesus com sua preferência pelos pobres. Com meu sangue um pouco mais quente eu lhe propus o seguinte: “Senhor fulano, eu detesto esses assuntos inconvenientes numa festa familiar. Vamos fazer o seguinte: Coloque todos os seus pastores num prato da balança da justiça e de Jesus e do outro lado coloque o padre Abdala. Vamos ver quem tem mais peso moral, de caridade, de honestidade e de ética”. Ele ficou sem graça, calou a boca, ficou sem palavras, pediu licença e sumiu para numa mais querer participar de nossas festas familiares. Acho que ele passou a pensar mais nos grandes valores

cristãos do grande padre Abdala, um patrimônio cultural, religioso, cristão e ético do Vale do Aço, da Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano e de toda a Igreja.

O Padre Abdala, de vivência de pobreza evangélica, preservou e disseminou a grande cultura clássica recebida no Seminário de Mariana - MG, como a filosofia, a teologia, a cultura greco-judaico e romana.

Abdala teve a capacidade de se adaptar e enriquecer a Igreja, especialmente pós conciliar, com uma pastoral dinâmica, assumindo a opção preferencial pelos pobres, nas lutas sindicais contra a prepotência do poder capitalista das Empresas que visavam tão somente o lucro para elas mesmas.

O nosso grande Abdala foi a corajosa voz profética da Igreja nos tempos da repressão militar, conscientizando o povo em favor da liberdade e da dignidade humanas.

PADRE ABDALA E DOM OSCAR ROMERO

Eu comparo o padre Abdala com Dom Oscar Arnulfo Romero, bispo assassinado na Nicarágua, enquanto celebrava a eucaristia. Inicialmente, era tido como um bispo conservador, mas foi mudando as suas ideias e postura ao assistir às matanças indiscriminadas que as forças repressão de seus pais faziam contra o povo, os camponeses e os próprios membros das comunidades eclesiais de base e mesmo contra religiosas e padres.

Dom Romero transformou-se no grande defensor dos direitos humanos. Como estes não têm ninguém para os defender, Deus mesmo os toma sob sua guarda e se coloca do lado deles.

Não morreu por razões da política local. Mas por causa de sua coragem de denunciar, no seu programa de rádio dominical, os torturadores e assassinos de tantos pobres e camponeses.

A exemplo de Dom Oscar Romero, o Padre Abdala foi sensível á dor dos oprimidos e os defendeu até o fim, tendo coragem de denunciar os opressores e corruptos que ganham vantagens em cima dos mais fracos.

PADRE ABDALA E DOM HELDER CÂMARA

A exemplo de Dom Hélder Câmara, o Padre Abdala lutou pelos direitos humanos a vida inteira em favor da justiça e dos direitos humanos. Dom Hélder Pessoa Câmara OFS (Fortaleza, 7 de fevereiro de 1909 — Recife, 27 de agosto de 1999) foi um bispo católico e arcebispo emérito de Olinda e Recife. Defendeu os injustiçados em favor dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres, e a não violência. Humana.

O Padre Abdala não era perfeito, mas deixou para a Igreja um legado profético de conscientização do povo em favor da liberdade, da responsabilidade, dos direitos inalienáveis de cada pessoa.

Abdala, a exemplo de Do Hélder, foi um cristão, católico, profeta e militante em favor de uma Igreja participativa do povo de Deus em marcha em vista de uma libertação e da dignidade de cada pessoa.

Padre Geraldo Ildeo Franco

Fevereiro de 2018