01/06 Notícias da Igreja A síndrome de burnout na Vida Religiosa Consagrada feminina brasileira
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Mesmo que a síndrome de burnout não seja um assunto novo dentro do ambiente eclesial, é preciso reconhecer que as pesquisas científicas sobre o assunto são insuficientes – para não dizer inexistente – entre as irmãs religiosas consagradas, principalmente no Brasil.

Vagner Sanagiotto – frade carmelita

Desde a publicação do artigo “Le suore e la sindrome del burnout” no fascículo mensal do jornal L’Osservatore Romano chamado Donne Chiesa Mondo (David, 2020), muito se tem comentado sobre as condições de trabalho das irmãs religiosas consagradas dentro dos contextos eclesiais. Entre diversos fatores elencados, a publicação indicou a crescente preocupação com os altos índices da síndrome de burnout. Tendo em vista as reflexões apresentadas, a União Internacional dos Superiores Gerais (UISG) instituiu uma comissão trienal para o “cuidado pessoal”. O objetivo é animar a “construção de comunidades resilientes”.

Mesmo que a síndrome de burnout não seja um assunto novo dentro do ambiente eclesial, é preciso reconhecer que as pesquisas científicas sobre o assunto são insuficientes – para não dizer inexistente – entre as irmãs religiosas consagradas, principalmente no Brasil. As razões para tal “esquecimento” podem ser muitas, mas principalmente porque há relutância em falar em estresse e desgaste psicológico entre aquelas que consagram as suas vidas ao trabalho com o próximo. De fato, o compromisso com os ideais da consagração religiosa pode ser tanto que as religiosas não se rendem conta do risco da exaustão causada pelo excesso de trabalho.

Tendo como base as preocupações e conclusões elencadas pelo contexto eclesial e pela pesquisa científica, desenvolvemos uma pesquisa empírica entre as religiosas consagradas brasileiras (Sanagiotto et al., 2022). Basicamente, as duas perguntas que orientaram a pesquisa foram: quais são as características da síndrome de burnout entre as religiosas consagradas brasileiras? Qual o papel da vida comunitária nos processos (no desenvolvimento) da síndrome de burnout?

Na nossa pesquisa identificamos que a síndrome de burnout entre as religiosas consagradas brasileiras se define por médios níveis de exaurimento emotivo que, basicamente se caracteriza pela sensação de estar em contínua tensão e emotivamente “vazio” no relacionamento com os outros e com o próprio trabalho; por altos índices de despersonalização, que se caracteriza pela atitude negativa no relacionamento com as pessoas destinatárias do serviço prestado; enfim, mesmo diante do exaurimento emotivo e da despersonalização, as religiosas consagradas se descrevem com altos índices de realização pessoal.

Mas, podemos nos perguntar: quem são as irmãs religiosas consagradas em que o burnout se manifesta com maior frequência e intensidade? Se consideramos as religiosas consagradas que responderam à pesquisa, são as mais jovens (até 40 anos, quanto mais jovem, mais propensa ao burnout) e com menos tempo de votos perpétuos. Esse perfil, muito mais que um dado cronológico, nos coloca dentro de um período específico da formação permanente: os primeiros anos de votos perpétuos, a chamada transição da formação inicial à formação permanente (Sanagiotto & Pacciolla, 2022).

Bom, e qual é o papel da vida de comunidade? Os dados da pesquisa nos indicaram que, quanto maior for o nível da satisfação com a vida em comunidade, maior serão os recursos disponíveis para lidar com a síndrome de burnout, especialmente o exaurimento emotivo e a despersonalização; além disso, uma boa qualidade de vida em comunidade possibilita o aumento nos níveis de realização pessoal.

Para a vida religiosa consagrada, a vida comunitária é um elemento essencial, faz parte do DNA viver e conviver em comunhão. Nos diversos trabalhos apostólicos onde as religiosas consagradas estão inseridas, muitas vezes se lida com vidas muito fragilizadas e que absorvem as energias e se não encontramos um espaço saudável para reabastecer nossas forças humanas cedo ou tarde as consequências virão. Investir em relações saudáveis gera vida intra e extra comunidade. E tudo isso nos é confirmado pelas pesquisas empíricas.

Bibliografia

DAVID, F. Le suore e la sindrome del burnout. In: Donne Chiesa Mondo, n. 85, p. 8–11, 2020.

SANAGIOTTO, V.; CAMARA, C.; PACCIOLLA, A. A síndrome de burnout na Vida Religiosa Consagrada feminina:  as contribuições da vida em comunidade. Angelicum, v. 99, n. 1, p. 39–63, 2022.

SANAGIOTTO, V.; PACCIOLLA, A. Exaustos, porém, realizados! Análise descritiva da síndrome de burnout entre os padres e religiosos brasileiros. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 82, n. 321, p. 193–207, 2022. DOI: https://doi.org/10.29386/reb.v82i321.3942

SANAGIOTTO, V. Analisi della sindrome di burnout tra i sacerdoti e i religiosi brasiliani: un’indagine sul campo tra i domini di personalità e la gestione delle emozioni (tese de doutorado). Università Pontificia Salesiana, Roma, 2022.

Vagner Sanagiotto é frade carmelita, psicólogo e psicoterapeuta, doutor em psicologia pela Pontificia Università Salesiana (Roma, Itália). Desenvolve pesquisas na área da psicopatologia na Vida Religiosa e Presbiteral. Contato: vsanagiotto@yahoo.com.br

Vatican News
Imagem capa: Pixabay