24/01 Notícias da Igreja Médicos católicos italianos contra a eutanásia: não promoveremos a morte
Compartilhar

A Associação de Médios Católicos Italianos publicou um documento explicando a necessidade de contrariar os desvios legislativos da eutanásia e apelando à implementação da lei de 2010 sobre os cuidados paliativos. O texto surge no momento em que o Parlamento italiano continua sua análise do projeto de lei Bazzoli sobre o fim da vida. Presidente Boscia: cultura mortal alimentada pelos problemas do sistema de saúde.

Com o manifesto intitulado “O médico é pela vida, não ao razoável desumano por piedade”, a Associação de Médicos Católicos Italianos (AMCI) voltou a reiterar sua oposição a qualquer deriva da legislação e do sistema de saúde ligada à morte.

Os profissionais divulgaram o texto no atual contexto político, que vê duas iniciativas favoráveis à eutanásia e ao suicídio assistido: uma é o referendo que visa descriminalizar o artigo 579 do Código Penal que pune o homicídio do concordante (questão cuja legitimidade será avaliada nas próximas semanas pela Consulta); a outra é representada pelo projeto de lei sobre o fim de vida Bazzoli, em discussão no Parlamento.

Não confundir o desumano com piedade

O manifesto dos médicos católicos reafirma a absoluta incompatibilidade entre o agir médico e o matar. Além disso, recorda a necessidade de garantir o acesso aos cuidados paliativos e à terapia da dor em todo o país. Denuncia também o perigo do abandono terapêutico para todos os sujeitos frágeis a quem gostariam de oferecer uma “doce morte” antes que cuidados médicos e proximidade humana.  Os médicos exortam a “não confundir o desumano com piedade”.

O texto, assinado pelo presidente da AMCI Filippo Maria Boscia, destaca que “alguns começam a distinguir entre ‘vida’ e ‘não-vida’, entre ‘digna’ e ‘não-digna’, entre o ‘morrer com dignidade’ e o ‘morrer sem dignidade’, rotulando assim, com juízos subjetivos, muitas condições de vida frágil”.

“Reconhecemos que o pedido de suicídio assistido ou de eutanásia muitas vezes surge da recusa em continuar vivendo em condições de precariedade e grande sofrimento – continua Filippo. No entanto, deveríamos estar muito atentos para não aceitar facilmente o desumano por piedade, o desumano ‘razoável’ por compaixão”.

A AMCI reconhece depois que uma morte digna deve ser assegurada para todos: este é um princípio essencial do cuidar e esta ação não pode encontrar atalhos no que diz respeito às práticas de apoio e acompanhamento aos doentes nas últimas fases de sua vida. A defesa dos princípios éticos e da objeção de consciência também é clara: o suicídio assistido e a eutanásia – reiteram – “não são opções terapêuticas possíveis ou praticáveis na aliança médico-paciente e na relação de tratamento e confiança”.

Implementação imediata da lei sobre cuidados paliativos

Por todas essas razões, a Associação de Médicos pede ao Estado italiano que não negue formas de assistência e proteção aos doentes crônicos, idosos, deficientes e doentes mentais, apoiando formas de eutanásia social ou seleção de frágeis e fracos. A AMCI exorta as administrações públicas a implementarem o grande potencial da Lei 38/2010 para garantir o acesso aos cuidados paliativos e à “terapia da dor”, acompanhando a “necessidade de manter o doente terminal num percurso existencial, consubstanciado ao máximo pelas relações humanas e afetivas”. Essa força, segundo a Associação, representa “uma oportunidade de diálogo e melhoria da assistência à eubiosia (o contrário da eutanásia), ou seja, uma vida boa, um verdadeiro desafio para um renovado humanismo do cuidado”.

Boscia: tememos a cultura da eutanásia

“Neste último período, a relevância do ‘bem viver’, está se esfacelando sob o peso da exaltação das liberdades individuais, num momento particular da pandemia em que se registra a recusa de tratamentos nos hospitais”. Foi assim que o presidente da AMCI Filippo Maria Boscia, aprofundou os temas mais importantes do manifesto à Rádio Vaticano-Vatican News.

“Como médicos comprometidos com o tratamento – continua ele – devemos esclarecer a diferença entre o deixar morrer e o fazer morrer”. Segundo o presidente dos médicos católicos, vivemos uma cultura de eutanásia alimentada por alguns problemas no sistema de saúde, como a lotação de hospitais, adiamento de atendimentos e cirurgias e o abandono das famílias e dos pacientes. “Quando se percebe não ser aceitos na doença – continua Filippo – surge o desejo de dizer ‘vamos acabar com isso’. Mas é justamente aqui que devemos focar a questão”.

Proximidade e cuidado para combater a cultura da morte

Doutor Boscia destaca ainda a necessidade de os doentes e pessoas com deficiência viverem relações de proximidade: “é isso que falta e que leva as pessoas a pedir a morte. Não temos alternativa como médicos, podemos somente trabalhar pela vida. A descriminalização da eutanásia não pode nos entusiasmar. Se nos pedem para ajudar a morrer, comprometem os fundamentos do bem comum e os princípios da solidariedade e justiça para com os mais frágeis, é uma questão de civilização”.

Razões econômicas por trás da eutanásia

Por fim, o presidente da AMCI destaca a importância da terapia da dor. “Não existem doenças incuráveis. Existem doenças incuráveis crônicas, mas essas precisam ser melhor tratadas porque estamos diante de um paciente mais frágil que os outros”. Para Boscia, a “deriva mortal” também tem razões ligadas às escolha de alocação de recursos, “porque curar os mais frágeis custa caro”.

Filippo, portanto, exclui qualquer tipo de “proximidade” dos médicos católicos a um texto da lei da eutanásia: “Faremos um caminho de escuta, mas que dever ser participado por todos os batizados na Igreja”. “O grito pela eutanásia é um grito de alarme de quem sofre – conclui – mas quando nós médicos nos aproximamos desta dor, cria-se um diálogo educativo, que também os jovens deveriam conhecer, porque estamos falando da passagem mais humana da nossa vida”.

Marco Guerra – Vatican News
Imagem capa: Vatican Media