04/02 Notícias da Igreja Papa Francisco: “Não se pode ficar sepultado pelo mal feito”
Compartilhar

Introdução do Papa Francisco ao livro-entrevista “Passiamo all’altra riva” do padre Benito Giorgetta com Luigi Bonaventura, um ex-mafioso agora colaborador da justiça

Gianluca Biccini

“Jamais se deve reduzir o outro pelo seu erro”, porque cometer um erro “é um episódio, um segmento da vida, não a condição única e definitiva”. Pelo contrário, “é necessário ajudar cada pessoa, com amor, a ir além do seu próprio erro”. Palavras do Papa Francisco na introdução do livro-entrevista “Passiamo all’altra riva” (Passemos para a outra margem) do padre Benito Giorgetta com Luigi Bonaventura, um ex-mafioso agora colaborador da justiça.

Ouça e compartilhe!

Publicado diretamente pelo autor através da plataforma Youcanprint, o livro de 194 páginas tem o subtítulo “Reaviar a vida? Há outra margem a ser alcançada em cada um de nós” e se baseia na intensa atividade do padre e jornalista, pároco da igreja de São Timóteo em Termoli, voluntário no presídio de Larino, e responsável pela casa-família Iktus, que abriga prisioneiros em liberdade condicional, semi-libertação ou em serviços sociais. Com um pós-prefácio de Don Luigi Ciotti, fundador da associação ‘Libera’ contra o abuso de poder das máfias em toda a Itália, a obra tem um “valor agregado” com o texto do Papa que “sintetiza muito bem o frequente e insistente magistério” de Bergoglio “imbuído pela mensagem da misericórdia de Deus” para com os prisioneiros, como explica o padre Benito.

Correção fraterna

Francisco enfatiza sobretudo a importância da “correção fraterna” como um “gesto de amor pelo irmão”. Isto não significa – esclarece – “sentir-se superior ou melhor, mas socorrer e ajudar o outro a superar suas dificuldades, oferecer o ombro para seu problema porque naquele momento ele é fraco, frágil e se o seu ombro não estiver ao seu lado, ele cai”. Além disso, acrescenta, “corrigir significa ‘segurar com’: não censurar os outros por seus pecados, mas, ficando próximo, ajudá-los a superá-los, caminhando juntos em direção à cura ou ao seu início”. Com efeito, “o outro será curado porque sentiu o seu amor e sentiu um desejo de amar”. Além disso, “se deixarmos a outra pessoa em seu erro, sem corrigi-la, tornamo-nos co-responsáveis, se não o ajudarmos, isso equivale a uma omissão de socorro”; como a dos que testemunham acidentes rodoviários e passam sem parar.

Às vezes – continua Francisco em sua análise – “teme-se quase ser contaminado” pelo ímpio. Em vez disso, “devo me interessar por ele, tomar conta dele, fazer tudo o que puder para salvá-lo”. Como? O Papa enumera uma série de respostas práticas e concretas, como é seu estilo pastoral. “Antes de mais nada”, diz, “devo dar-lhe o que ele mais precisa”. Imediatamente. Amá-lo com sinceridade e depois sofrer pelos pecados que comete”. E ainda “rezar por ele”, porque “a oração me faz tornar a mão de Deus sobre ele, o sinal de sua preocupação paterna através da minha presença”. “O Espírito Santo fará o resto”.

Dar o primeiro passo

Por fim, sugere o Papa, “é preciso dar o primeiro passo”, enquanto “é indigno quando uma pessoa olha para o outro com uma atitude de superioridade”. E “isto encontra um exemplo concreto na experiência” do entrevistado, que se tornou “com sua escolha corajosa e arriscada uma semente de esperança semeada nos sulcos de uma sociedade preocupada exclusivamente com seus negócios e com seus mil compromissos, distraída em relação ao que realmente conta”. Mas é também uma semente lançada nas terras mais atingidas pelo flagelo da Máfia. Assim como toda semente, quando recebe chuva é fertilizada e germina, também o testemunho de um homem da máfia pode se enraizar na consciência e na sensibilidade daqueles que querem uma sociedade onde haja espaço para os direitos das pessoas, da legalidade e da dignidade reconhecida para todos, especialmente os mais fracos, mais frágeis, descartados e marginalizados”.

Ao mesmo tempo, “as respostas-testemunhos de Luigi Bonaventura, o ex-mafioso, são uma rica exposição da vida atormentada de uma pessoa que, doutrinada e imbuída de máfia, agiu criminosamente, mas são também um vislumbre de luz e vida nova porque, tendo abandonado a lógica do abuso, Luigi se abriu a uma nova visão”.

Portanto, o Papa Francisco pode chegar à conclusão que “se pode”, na verdade “é preciso mudar, não ficar sepultado pelo mal feito; pode-se sempre passar para a outra margem mesmo que a navegação seja cansativa e cheia de perigos. O importante é não se sentir sozinhos, mas acompanhados. Assim como Jesus disse diante do mar quando convidou os discípulos dizendo: ‘Vamos para a outra margem’. Ele com eles. Não sozinhos!”.

Vatican News